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Indígenas deixam aldeias no interior do Ceará para ocupar bancos de universidades na Capital

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 Estudantes: Leonária Potyguara, Mariana Silva e Siomária Luz. Imagens: Arquivos pessoais.


Durante longo tempo, e para muitas pessoas, pensar na inclusão de indígenas no Ensino Superior parecia improvável. Afinal, como imaginar que populações tão diferentes, pudessem em algum momento na história, querer fazer parte deste universo do conhecimento? Mas apesar dos preconceitos ainda existentes entre boa parte da população brasileira, a estrutura da sociedade indígena se integra cada vez mais com a do homem branco.

Atualmente, seis jovens indígenas da etnia Potyguara, pertencente ao movimento Potygatapuia do município de Monsenhor Tabosa – CE estão cursando ensino superior em universidades de Fortaleza. Elas estão entre às milhares de estudantes cearenses aprovadas no ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio. As jovens foram contempladas pelo sistema de cotas raciais e são acadêmicas dos seguintes cursos: direito, nutrição, fisioterapia e psicologia.

A cultura indígena no município de Monsenhor Tabosa tem se tornado cada vez mais forte através das quatro etnias presentes: Potyguara, Tabajara, Gavião e Tubiba Tapuia. No total a comunidade indígena no município ultrapassa os 5 (cinco) mil habitantes, aproximadamente um terço da população do município.

Para a liderança indígena Teka Potyguara, essas conquistas são frutos da união dos povos indígenas e de uma educação diferenciada, intercultural e bilíngue, ofertada nas escolas da comunidade. “Atualmente a Escola Povo Caceteiro que fica na Aldeia Mundo Novo, conta com mais de 900 alunos (do maternal ao ensino médio regular) distribuído em 17 anexos, que além das aulas convencionais trabalham contextos socioeconômico, espiritual e político, enfatizando o valor da família, a importância da economia e da espiritualidade. Já a educação bilíngue contempla além das matérias tradicionais o conteúdo Tupi Guarany para todas as modalidades”, esclarece Teka.

“Na parte intercultural valorizamos o jeito de ser, o comportamento e a visão de mundo do indivíduo, isso se dá através das pinturas corporais, danças indígenas, medicina tradicional, preservação do meio ambiente e alimentação. Através desses ensinamentos quando o aluno conclui o ensino médio regular está apto a prestar vestibular e passar. Além do aluno aprender a educação convencional, se torna conhecedor de sua cultura e outras filosofias, com foco especial no respeito à natureza e a luta pela permanência na terra”.

As futuras profissionais que já orgulham a comunidade Potyguara são: Leonária Potyguara, 18 anos, cursando o terceiro semestre em Direito, Mariana Silva, 18 anos, cursa fisioterapia, Siomária Luz, 22 anos, acadêmica do curso de nutrição. As outras três estudantes optaram pelo curso de psicologia: Gabriele Melo, 18 anos, Brena Kesia, 24 anos e Tatiane Andrade, 23 anos.

“O ensino das escolas indígenas além de ter o papel de passar todos os conteúdos tradicionais e culturais, nos mostra desde muito cedo que precisamos reivindicar nossos direitos e que eles só serão adquiridos através de muita luta e esforço”. “Tenho muito orgulho de me reconhecer e me identificar como índia. Hoje, sinto-me gratificada por ter chegado à universidade, principalmente por mostrar para os demais que também somos capazes, pois a educação indígena tem ensino de qualidade”, diz Leonária Potyguara.

A futura fisioterapeuta Mariana Silva, afirma que sempre estudou em escolas indígenas e a sua base de ensino foi à forma da educação contextualizada. “Isso fez com que minha mente se abrisse e despertasse interesse em continuar com os estudos, meus professores foram grandes incentivadores,” lembra.

Tatiane deve ser a primeira entre as seis a concluir a graduação, pois já se encontra no sétimo semestre de um total de dez. Para Tatiane essa tem sido uma experiência enriquecedora, tanto do ponto de vista pessoal como profissional. “Aprendi outras formas de ver o mundo, as pessoas e suas relações. A psicologia me proporcionou esclarecimentos sobre subjetividade, sociedade e conscientização sobre meu papel social no mundo”, diz.

“A minha graduação tem se enveredado por um lado social e educacional muito forte. Em 2016 apresentei no Encontro Científico da UNIFOR uma pesquisa que realizei sobre Inclusão Social… Por reconhecer à importância de se trabalhar a inclusão dos povos, línguas, credos e raças dentro das escolas com as crianças, em especial com as crianças indígenas. Pretendo, após a conclusão do curso, contribuir de forma efetiva e positiva no que cerne a saúde mental dos povos indígenas da minha cidade”, declara Tatiane.

POLÍTICA

A comunidade indígena Potyguara também conta com representatividade na Câmara Municipal. Conseguiu eleger um vereador no pleito de 2016. Vicente Sampaio Filho (Vicentinho Potyguara) foi eleito com boa expressividade e se se tornou um dos dois parlamentares indígenas eleitos no Ceará.

Por Dorismar Veras

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